Saúde humana pode estar em risco se exposta a substâncias
químicas por longo tempo?
A resposta a esta pergunta marcou parte das discussões durante o 3º Simpósio “Patologia Toxicológica e Segurança de Produtos Químicos” que teve como
proposta identificar a toxicidade de produtos industriais e seus riscos para a
população. O evento, promovido pela ALAPT – Associação Latino-Americana de
Patologia Toxicológica, em parceria com o ILSI Brasil, acorreu em março e reuniu
palestrantes brasileiros e convidados internacionais.
O encontro abriu a oportunidade de debater a importância da Patologia
Toxicológica no processo de pesquisa e desenvolvimento de produtos químicos,
enfocando particularmente os ensaios pré-mercado e pré-clínicos com animais
de laboratório utilizados, respectivamente, para agrotóxicos e fármacos. Os
especialistas observaram que, graças à participação integrada de profissionais
de diferentes áreas biólogos, toxicólogos, veterinários, médicos, farmacêuticos
tem sido possível identificar os efeitos adversos, as doses críticas e os modos de
ação das substâncias químicas. Daí considerarem essenciais as informações
toxicológicas de qualidade sobre periculosidade e a relação dose-reposta para
se estimar o risco químico. É na produção destes dados que a Patologia
Toxicológica desempenha um papel fundamental.
Um dos alertas, durante o Simpósio, foi a pequena competência estabelecida
em Patologia Toxicológica nos países da América Latina. No Brasil, por exemplo,
são raríssimas as instituições de ensino superior com disciplinas de graduação e
pós-graduação voltadas à formação destes profissionais. “Precisamos resolver
este déficit de know how, tanto para levantar o desempenho de nossa academia
aos níveis científicos internacionais nestas áreas, como para dar suporte
técnico-científico às agências reguladoras e à indústria química e farmacêutica
locais”, observou João Lauro Viana de Camargo, professor titular de Patologia
da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP e presidente da ALAPT.
PALESTRAS
Dr. Shoji Fukushima, do Japan Bioassay Center (JBC), abordou a avaliação do
risco em contexto de exposição a baixas doses e discutiu a importância de
identificação de limiares para efeitos adversos. Observou que tem sido
geralmente aceito que agentes cancerígenos genotóxicos não têm limite para
exercer sua carcinogenicidade. Por exemplo, aminas heterocíclicas (MeIQx, IQ,
PhIP, etc) e nitrosadas (dietilnitrosamina, dimetilnitrosamina, etc) são
substâncias genotóxicas que podem levar a um processo cancerígeno. Os
estudos apresentados por Dr. Fukushima sugerem a existência de limiares para
agentes genotóxicos e efeitos do tipo inverso (hormesis) para agentes não-genotóxicos. Essas observações são de grande importância na atividade de regulamentação de substâncias químicas por agências governamentais. A
avaliação dos riscos a partir deste ponto de vista é fortemente desejada, em
especial no que se refere aos contaminantes e impurezas, considerando que
estamos expostos a muitos agentes cancerígenos e genotóxicos na nossa vida
diária.
Dr. Douglas Wolf, da U.S. Environmental Protection Agency (US-EPA), ministrou
duas palestras. Na primeira descreveu o papel crítico que a Patologia
Toxicológica ocupa no processo de caracterização de efeitos adversos
(toxicidade) e como isto pode contribuir para a avaliação do risco químico.
Destacou os conceitos atuais, a nomenclatura e os procedimentos utilizados por
patologistas toxicológicos no processamento de tecidos de animais de
experimentação, na análise histológica e a importância de se aplicar o regime de
boas práticas laboratoriais (BPL), isto é, manter padrões técnicos de excelência
para padronizar os ensaios toxicológicos, suas análises e seus relatórios.
Comentou que a avaliação do risco para a saúde humana e ambiental é um fator
crítico para as decisões de gestão do risco. Para ele, todas as características
apontadas na prática da Patologia Toxicológica são importantes para a
interpretação adequada dos dados disponíveis, em apoio à avaliação do risco
que determinados agentes químicos podem impor à saúde humana.
Na sua segunda palestra, Dr. Wolf apresentou o uso de high-density data para
identificação do perigo e caracterização do risco químico. Observou que a
aplicação desses dados permite identificar o modo de ação toxicológico da
substância de interesse, considerando sempre os eventos e os processoschave
da toxicidade, que ocorrem desde a interação inicial de um agente com a célulaalvo,
o que leva a alterações funcionais e anatômicas, até a instalação do efeito
adverso final. Destacou a importância de se identificar e caracterizar esses
eventos-chave, que podem também constituir marcadores biológicos do
processo patológico em andamento.
Ressaltou que, embora exista longa lista de substâncias químicas que precisam
sofrer algum nível de análise para verificação de sua segurança química, elas
não devem passar indiscriminadamente por baterias de testes in vivo para isto.
Os procedimentos laboratoriais, agora disponíveis permitem determinar a
atividade biológica de centenas ou milhares de xenobióticos, em horas ou dias,
e podem fornecer dados que são avaliados por modelos preditivos para alguma
conclusão sobre sua toxicidade.
Um recurso importante das abordagens de dados de alta densidade é a
toxicogenômica, que permite o entendimento molecular dos processos
biológicos-chave no interior das células e tecidos, que culminam com um
resultado adverso após exposição a um xenobiótico. Os vários tipos de dados genômicos, incluindo perfis de transcrição, proteômica e metabolômica, podem
fornecer um entendimento mecanicista para descrever o modo de ação que
leva ao efeito adverso, assim como a relevância potencial deste modo de ação
para a espécie humana.
Dr. Robert Ettlin, da IFSTP (International Federation of Societies of Toxicologic
Pathology), discutiu a questão de treinamento e acreditação de patologistas
toxicológicos no cenário de globalização de mercados e serviços. Para ele, o
patologista toxicológico tem papel central nas investigações sobre a toxicidade,
de modo que necessita ser treinado adequadamente para ter uma
compreensão abrangente da patologia morfológica e clínica que resultam da
exposição a agentes químicos. Empregadores, órgãos reguladores e autoridades
de saúde precisam confiar no julgamento destes profissionais, mas às vezes é
difícil avaliar sua capacidade, devido à diversidade de sua educação e formação
científica ao redor do globo.
Como a Patologia Toxicológica é uma disciplina relativamente jovem, só em
poucos países - EUA, Reino Unido, Japão, Holanda e Alemanha - existem vias
estabelecidas para a formação desses profissionais. Em geral, os cursos têm
foco em Patologia Veterinária e, por isso, não são suficientes para as
necessidades atuais do exercício profissional, principalmente porque a
experiência está atrelada à prática, sendo necessário não só o conhecimento
específico, mas também o geral para integrar a Patologia Toxicológica à
avaliação do risco químico. A International Federation of Societies of Toxicologic
Pathologists (IFSTP) e a maioria das sociedades nacionais filiadas a ela acreditam
que são necessárias normas internacionais para reconhecer e certificar estes
profissionais, pois apesar de os produtos químicos, medicamentos, partículas e
componentes biológicos serem geralmente desenvolvidos em países
industrializados, são utilizados internacionalmente, devido à globalização dos
negócios.
A IFSTP tem em discussão uma proposta para a formação e reconhecimento do
patologista toxicológico ao redor do mundo, em colaboração com a Academia
Internacional de Patologia Toxicológica (IATP), da qual o Dr. Douglas Wolf,
também presente ao Simpósio, é o atual presidente. A proposta será
particularmente discutida em junho deste ano,em Chicago, na reunião anual da
Sociedade de Patologia Toxicológica norte-americana.
MESA REDONDA
Além das palestras, ocorreu uma Mesa Redonda com palestrantes nacionais,
que debateram os recursos e as dificuldades do Brasil desenvolver bioensaios
não clínicos, que se sustenta fortemente na Patologia Toxicológica.
Henry Suzuki, Diretor da Axonal Consultoria Tecnológica, focou sua
apresentação no papel dos ensaios pré-clínicos como base da cadeia de
inovação farmacêutica. Observou que a consolidação do setor tem caráter
estratégico para atividades de pesquisa e desenvolvimento não só de novos
fármacos e medicamentos, mas também de métodos de diagnóstico e avaliação
de novos produtos e alvos farmacológicos.
O consultor chamou a atenção para os fatores que deverão impactar na
demanda e qualidade de estudos pré-clínicos no país, como a ampliação de
requisitos regulatórios para registro e comercialização de produtos
farmacêuticos, químicos e cosméticos; a ampliação do número de projetos de
PD&I (Pesquisa Desenvolvimento e Inovação) que estão sendo conduzidos no
país; a elevação do grau de exigência quanto à qualidade de animais,
profissionais, documentação e outros aspectos relacionados a boas práticas
laboratoriais e de pesquisa e o aumento da terceirização de etapas de PD&I por
empresas multinacionais.
Observou, ainda, que no que se refere à sua importância, o setor de estudos
pré-clínicos ainda é incipiente no Brasil e são escassos os conhecimentos sobre
competências e demandas no país. No presente momento, é evidente a
necessidade de realização de um planejamento estratégico nacional, com
participação de atores de múltiplos segmentos, incluindo pesquisadores,
cientistas, empresas prestadoras de serviços, indústrias farmacêuticas, agências
de fomento e órgãos regulatórios.
Dra Silvia Berlanga de Moraes Barros, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas
da USP, apresentou o trabalho desenvolvido pelo Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia para Inovação Farmacêutica (INCT), cujo foco se direciona para a
inovação farmacêutica como instrumento transformador da realidade social
brasileira numa interligação entre ciência, tecnologia e inovação (produtos e
processos). Constituído por universidades de quase todo o país, o INCT abrange
pesquisa científica e tecnológica, formação de pessoal qualificado, educação e
difusão e transferência de conhecimento para o setor empresarial ou para o
governo e gestão de articulação.
Tendo como alvo doenças Negligenciadas, Cardiovasculares e Câncer, o
programa de ações envolve fármacos, medicamentos e insumos para
diagnóstico e está direcionado para incentivar atividades de pesquisa,
desenvolvimento e transferência de tecnologia.
Dra Silvia também abordou a atual legislação para registro de novos fármacos e
citou o “Guia de estudos não clínicos de segurança necessários para o desenvolvimento de medicamento”, recentemente divulgado pela ANVISA.
Também foram mencionadas as recomendações do ICH (International
Conference on Harmonisation of Technical Regulaments for Registration of
Pharmaceutcals for Human Use) para os estudos não clínicos de segurança. No
que se refere à regulamentação de registros fitoterápicos e praguicidas foram
apresentadas portarias nestas áreas. Uma das conclusões foi a necessidade da
avaliação, além de se desenhar o experimento, para que ele possa ser utilizado.
Comentou, ainda, sobre a necessidade de laboratórios credenciados,
infraestrutura e recursos humanos para execução dos ensaios pré-clínicos.
Dr. João B. Calixto, da Universidade Federal de Sta. Catarina reafirmou a
necessidade da formação de profissionais na área e o importante papel da
universidade para disponibilizar conhecimento necessário para inovação.
Porém, observou que a relação academia-empresa ainda vive restrições e
conflitos de interesses e que há apenas alguns órgãos que apóiam a formação
de profissionais e se preocupam com garantia de seu trabalho.
Uma questão final levantada na Mesa Redonda foi a das patentes, considerando
que as informações toxicológicas pré-clínicas são relevantes no processo de
patenteamento. Foi destacada a necessidade de uma visão mais focada nesta
direção por parte das universidades, antes mesmo da publicação das pesquisas.
Neste contexto, o “paper” foi citado como importante, mas apenas como uma
etapa do processo de formação acadêmica, devendo os pesquisadores
implementarem ideias de inovação, fundamentais para o país.
MINI-CURSO E PRÊMIOS PARA ESTUDANTES DE PÓS-GRADUAÇÃO
Este ano duas novidades fizeram parte do evento bienal patrocinado pela
ALAPT/ILSI-Brasil. De 19 a 21 de março, imediatamente após o Simpósio, foi
realizado um mini-curso sobre Patologia Toxicológica, ministrado por quatro
especialistas da British Society of Toxicologic Pathology (BSTP). Em média, esta
atividade teve uma audiência de 30-40 pessoas nos dois dias e meio do curso.
Foram abordados temas como patologia do fígado, tiróide, órgãos linfóides, órgãos reprodutores masculino e feminino, além das bases gerais de execução
de bioensaios toxicológicos com roedores.
Outros apoiadores do evento, a International Academy of Toxicologic Pathology
(IAPT) e a International Federation of Societies of Toxicologic Pathology (IFSTP)
ofereceram prêmios para alunos de pós-graduação e arcaram com suas
despesas de participação no evento. A IATP concedeu o prêmio “Charles Capen
Student Travel Award”, no valor de US$ 750, para Andréia Latorre, da USP; a
IFSTP concedeu dois Student Travel Awards, no valor de €500 cada, para Ana
Paula Favareto e Marize Solano, ambas da UNESP.
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